6 de fevereiro de 2013

Extraordinário [Resenha #106]

Extraordinario

 

 

 

Sinopse: Primeiro lugar da lista de best-sellers do The New York Times, eleito um dos melhores títulos YA de 2012 nos Estados Unidos, o premiado livro de estreia da americana R. J. Palacio traz à tona a luta contra o preconceito ao contar a história de um menino de 10 anos que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial. Narrado da perspectiva de August e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade – um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo.

Já faz algum tempo que, após assistir a “Super 8”, do JJ Abrams, e ter gostado muito, pedi que, quem – e caso – o encontrasse, desse um abraço nele. Digo o mesmo para Palácio: quem encontrá-la, por favor, dê um abraço nela por mim. E, se querem um conselho, leiam o livro. Acredito que não se arrependerão.

Extraordinário conta a história de August – Auggie, para a família e amigos – um garoto de dez anos que nasceu com uma séria deformidade facial e, mesmo tendo passado por uma série de cirurgias, ainda apresentava sequelas aparentes.

Claro que ele é amado pelo pai e a irmã, e vive em um mundo doméstico confortável na mesma medida em que é superprotegido, mas são poucos os momentos nos quais ele se sente plenamente feliz, pois sempre que ele deixa sua casa para um simples passeio no parque a expressão nos rostos dos desconhecidos denunciam o que sentem ao vê-lo, e bem sabemos o quanto uma cara feia nos faz esquecer de uma dúzia de sorrisos.

Certo dia sua mãe lhe diz que quer que ele frequente uma escola regular – até então ele era educado em casa, por ela – para que ele desenvolva suas habilidades intelectuais e sociais, e também por ela não poder, por si só, supri-lo muito mais com conhecimento.

O livro é um exercício constante de “se colocar no lugar”. Primeiro – e mais óbvio – no do próprio August, e imaginar como é a vida dele, como é ser diferente, ser constantemente observado, e não conseguir passar despercebido. Depois no dos seus pais, em como é educar e preparar para o mundo um filho que por mais forte que se torne encontrará pelo caminho desafios muito maiores do que podem imaginar. E de sua irmã, Via, que sente obrigação em protegê-lo, amá-lo e mesmo ceder seu espaço como filha para o bem estar dele.

As dúvidas e o medo que tomam sua mente ao saber que vai, pela primeira vez, a uma escola são muito compreensíveis. Como seria quando ele chegasse até lá? Como o receberiam? Crianças podem ser bem cruéis quando sentem vontade, e mesmo as reações involuntárias não seriam – como ele bem sabia – muito simpáticas. Nada pior, então, que ser o foco das atenções por um bom tempo, até que se acostumassem com ele.

Mas não se pode crucificar estas crianças. Nós, humanos – e isso independe da idade, na verdade, com o tempo, aprendemos a dissimular, tendo surgido em nós o vírus do politicamente correto, mas continuamos os mesmos – observamos tudo, em especial e com maior atenção aquilo que foge do que é considerado normal.

O livro é narrado em primeira pessoa  e dividido em partes que possuem como narrador diferentes personagens. Em cada uma delas, o personagem nos conta algo que diga respeito de sua relação com August, e assim, de forma fragmentada mas surpreendentemente simples e funcional, vamos coletando os pedaços da história e construindo algo que se pareça com uma verdade, ou pelo menos uma versão dos fatos que nos permita sermos justos.

Como sua irmã Via diz, é como se August fosse um astro ao redor do qual orbitassem todo o resto: pessoas, coisas, sentimentos; mas discordo dela em alguns termos: de todos os lugares do universo, o centro é onde, com certeza, August não gostaria de estar.

Esta divisão em partes é muito bem executada, e a autora tem todo o mérito por ter conseguido dar a cada um dos personagens uma voz própria ao contar sua parte da história: você os reconhece enquanto falam, e percebe as diferenças sutis de personalidade.

Vou me render à comparação que muitos farão: com “A Culpa é das Estrelas”. Ambos os livros colocam os protagonistas em situações delicadas, e por isso fazem deles personagens por quem, instintivamente, o leitor cria uma empatia, mas prefiro Auggie, já que Hazel e Gus são bem chatos e intelectualizados algumas vezes. Ademais, “Extraordinário” é melhor executado, como se, todo o tempo, a autora tivesse a história bem amparada, sobre suas mãos.

Meu maior cliché como resenhista é o “é difícil falar de um livro do qual se gosta tanto”. Sim, ele também se aplica aqui. Então, pra finalizar, diria que, em um livro sobre julgamentos, o melhor é não dar o veredito tão cedo. E também que, sim, o livro me fez chorar e por motivos diferentes – e principalmente no final.

E, talvez o mais triste, é constatar, ao trazer o drama de Auggie para o mundo real, que muitos de nós somos como Julian, Eddie e até Jack. Mas pouquíssimos seremos, mesmo um dia, como Justin, Miranda e Summer.

 

Extraordinário, de R. J. Palácio (Wonder, 2012 Tradução de Rachel Agavino, 2013) 320 páginas, ISBN 9788580573015, Editora Intrínseca.

{A+}

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14 comentários:

  1. Tenho mais simpatia por histórias que colocam em evidencia crianças com algum tipo de deficiência do que os que colocam crianças com câncer.

    O drama de ser ver portadora ou portador de uma doença como essa já é demasiado explorado em detrimentos das possibilidades e particularidades das vidas de crianças, familiares e amigos dos que possuem uma deficiência física ou intelectual.

    Penso que seja necessário a sociedade dialogar com personagens como o Auggie, como parente e amiga e as vezes professora de pessoas como ele, sinto uma enorme curiosidade pelo livro, já está minha lista lindamente.

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    1. E o livro é muito bem escrito, trata do assunto com delicadeza mas sem fugir ou perder o foco, e isso é muito bem vindo ;)

      Acho que você gostaria dele.

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  2. Extraordinário. A primeira coisa que me chamou a atenção nesse título foi o título. Daí seguiu-se a leitura da sinopse, por fim a sua resenha. Tenho que admitir que esse livro me chamou a atenção de uma forma bastante curiosa, é bem verdade que se trata de uma leitura diferente do que estou habituado. Mas, esse ano certamente será de novas experiências literárias. Extraordinário com toda a problemática que se propõe a tratar parece que consegue cumprir o que promete. Levar o leitor a reflexão.

    Abraços
    Juan - sempre-lendo.blogspot.com.br/

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    1. Juan, e vale muito a pena ampliar os horizontes de leitura. Que seja com "Extraordinário" então, que certamente será um livro que te colocará a refletir sobre diversos assuntos.

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  3. Oi Luciano, como vai?
    Primeiro, peço um milhão e meio de desculpas por ter demorado para voltar aqui. Estou trabalho e estudando e, fora meu horário de almoço, não tenho mais tempo para quase nada. Mas eu vou pegar meio período em breve, não estou mais aguentando essa rotina.
    Bom, PRECISO COMPRAR ESTE LIVRO. Confesso que não tinha gostado da capa e nem procurei ler a sinopse, mas li sua resenha e não sabia que o livro tratava de preconceito!
    Quanto a história, parece ser demais. Pela capa eu jamais compararia com A Culpa é das Estrelas, que é um livro que gosto muito. Eu acho indigno de um autor usar um problema sério ou uma tragédia para ganhar dinheiro, mas o John Green (e imagino que esse também seja o caso do autor de Extraordinário) apenas fala sobre o assunto, mostra como é a vida da pessoa com o tal problema. É difícil? É. Mas parece que a diferença entre Hazel e Auggie é que dela sentiam pena, dele repulsa.

    A Intrínseca deve estar feliz, por que você realmente convenceu um leitor a comprar um livro da editora através da sua resenha. Vou comprar assim que receber meu rico dinheirinho.

    Beijos!
    www.nathlambert.blogspot.com

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    1. Nath, acho que ambos os autores - tanto o John Green quanto a Palácio - trataram do assunto com um leveza muito bem vinda, sem explorar os problemas de uma forma que seria chocante. Lá fora o livro tem a capa no mesmo tom de azul v- ou muito semelhante - do ACEDE, dou graças por a Intrínseca não ter caído na tentação aqui.

      Vale a pena ler ;) acho que você vai gostar.

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  4. Parece ser um livro realmente "extraordinário". Além disso, parece ser um daqueles livros que você deve estar preparado psicologicamente para ler.

    Vou lê-lo quando estiver numa fase mais "alto astral". ^^

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    1. Aléxia, ele realmente mexe com o leitor, então se num momento alto astral melhor ainda para lê-lo ;)

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  5. Eba, estou feliz de estar de volta e poder voltar a acompanhar seu blog. Eu adoro os livros que você escolhe e amooooooooo de paixão as suas resenhas. Adorei Extraordinário, já estou morrendo de vontade de ler, ainda mais depois de você tecer tantos elogios.

    Beijos. Tudo Tem Refrão

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  6. Assim como A culpa é das estrelas, é complicado falar desse tema sem cair na auto ajuda e mimimi. Que bom que este autor conseguiu... O booktrailer é sensacional (algo raro em booktrailers) e estou ansiosa para que o meu chegue :)

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  7. Oi Luciano!
    Não conhecia esse livro, que bom que você está sempre mostrando livros novos (pelo menos para mim). Esse é mais um com uma história interessante e que levanta discussões.
    Eu também acho difícil resenhar os livros que mais gostei, não sei se consigo passar para os leitores o motivo de ter gostado tanto... É mais fácil falar dos que menos gostei, talvez porque seja mais fácil apontar defeitos.

    Beijos,
    Sora - Meu Jardim de Livros

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  8. Achei interessante sua comparação com A Culpa É das Estrelas, nunca pensei no livro por esse lado, e agora estou com ainda mais vontade de lê-lo. Já começa pela capa, compraria o livro somente por ela, de tão maravilhosa que eu achei. Você e sua mania de me fazer desejar livros, droga... hehehehe

    Abração!

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  9. Super interessante o tema do livro. Mais um autor para conhecer, pois quando vc diz que é bom tiro o chapéu rs.
    Super resenha!

    Beijos

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  10. Oi Luciano!
    O que é realmente extraordinário é ter uma autora que aborda algo tão original. É claro que a aceitação na sociedade é algo bem comum de se tratar hoje em dia - parece que todo mundo resolveu ter problemas internos e ser estranho hoje em dia -, mas envolvendo algo tão real quanto uma deformação física é a primeira vez que eu vejo.
    Estou MUITO curiosa mesmo para ler esse livro. Espero ler logo!

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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